quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Delírio

 
Por vezes, acho-te tão inepto que dou por mim a abalroar-te até me suplicares que pare.
Pena ser, tudo isto, mero delírio. Se eu pudesse esquecer, por um minuto apenas, a minha racionalidade e o meu bom senso! Nos segundos próximos, não serias mais que nada. Pouco depois, olho para ti e dou por mim a sorrir por dentro. Apercebo-me o quanto estúpida também eu sou, tudo por não saber odiar-te.
Não tarda, sei que irás chegar para mim, e dizer-me algo parvo. Tentarei manter um ar sério carregado com uma aura de orgulho, mas voltarás a fazer mais uma investida, e não resistirei. E todo o meu rosto abrir-se-á num sorriso. E tudo o que irá ficar, mais uma vez é…


- Arranja-me uma moeda para um cigarrinho? - perguntou a rapariga que deambulava pelo cais.
- Ela disse para um cigarro?! Mas por que carga de água ela me pede uma moeda para um cigarro, quando sabe perfeitamente que detesto tabaco?!E não só, é dinheiro para tabaco, ou será que ela quis dizer para uma sandes? Se assim for dou-lhe com todo prazer. Não, ela quis mesmo dizer tabaco. Não seria melhor pedir-me uma nota para comprar uma arma? E dar logo um tiro na cabeça por exemplo?! Prático, eficaz e eficiente. Afinal, se fuma é porque gosta de suicidar-se lentamente. Como é possível sentir prazer nisso?

Katya Figueiredo
 
 
 

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Quente


  Eras quente
Agora és frio
Já não me aqueces
Como antigamente
Hoje eu sinto o arrepio...
Pois dos teus beijos,
Só recebo um calafrio
Atinges-me,
Como que a água dum poço
Que me gela o sangue com pouco esforço
Os teus beijos,
Tão rápido rapidamente tornaram-se estranhos para mim
Como é que, tão fácil facilmente os sábios,
Deixaram-te assim
O homem que te perdoou,
Também reza pela minha dor
Um último beijo,
Na flor eu dou
Sem saber quando te revejo,
Deixo-te ir com a rosa que da terra brotou
Eras eloquente
Agora és sombrio
Será que ainda vagueio em tua mente?
Ou, abandonaste-me num terreno baldio?


katya Figueiredo
 


 
 
 


terça-feira, 19 de novembro de 2013

Triste


 
 Triste sou eu
Deixo o dia passar em branco
Só porque o céu não está da cor que se quer.
Tristes são os meus olhos, que fecham-se de vergonha
Em patético embaraço,
Quando vem à tona que também sei amar.
Triste és tu que deixaste de viver
Com medo de sofrer.
Triste é ela que anseia morrer
Quando muitos morreram para viver.
Triste é ele que sofre por antecipação
Quando deveria celebrar a vida.
Triste somos nós que comemos em fartura
E ainda nos queixamos.
Triste sois vós que desperdiçam o alimento,
Quando alguém em algures, nada tem para comer.
Triste são estas cidades,
Que iludem a minha mente
Para nunca as poder questionar.
Triste é o homem
Que enterra o tempo na rede,
Quando a natureza o seduz.
Triste é o marido, que agredi a mulher
Quando o mais fácil seria amá-la.
Triste sois vós que dão-se a fruição
Parar de respirar, pensando na morte
Quando vão tê-la eternamente.
Triste é, estragar a surpresa.
 

Katya Figueiredo