quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Feliz Ano Novo




O ano de 2014 foi, sem dúvida, um ano marcante. Praticamente o meu ano revelação. Quanto a 2015 espero que seja o ano de: arriscar, arriscar, arriscar.
Destaques de 2014:
Contos
O Esplendor da Rainha
 
Poemas
Benfica
 
Frases Soltas
Eu, Incêndio, Épico
 
Aventuras
Uma Aventura em Angola
 
Sugestões
E Viva os Escritores Angolanos
 
Muito obrigada pela visita e bom ano para si,
 
Katya Figueiredo

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

FELIZ NATAL

Paz,amor,saúde e felicidade é tudo que eu desejo para si.
Grata pela visita,

Katya Figueiredo

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Por Seres Tu


 

Tu és o que eu chamo de fogo.

És a chama em mim

Que bem queima toda minha alma.

Violo todas regras deste jogo

Para mim, não há cá fim

Ou morre-se ou se ama.

Confesso-me.

Nada melindrada com tamanha desafeição

Quero mais é conquistar-te,

 Desviando-te por recônditos atalhos.

Por mais que teu desprezo me bata

Meu cândido coração

 Insiste, persiste em chamar-te,

Grita aflito e não resiste

A lembrança do verde dos teus olhos.

Apaixonei-me.

Que mais posso eu dizer de toda esta desgraça?!

Está visto que bem me maltrata,

Mas ainda assim tem lá a sua graça

Por seres tu.
Katya Figueiredo                   

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Finally Happiness

Bom dia
Finalmente, férias. Tempo para esgotar o meu brinquedo novo, tempo para mim e tempo para o blog. E, para comemorar, por que não ouvir This How you Remind Me dos Nickelback? Uma música de que gosto muito e remete-me para uma altura em que um grupo de amigos, colegas, conhecidos, íam à praia, às duas da manhã,jogar futebol. Às três da manhã corriam à beira da praia mais um ou dois quilômetros. Às três e meia, isto em pleno inverno, entravam para o mar. Às quatro sentavam-se no capô ou andavam à volta dos seus carros a devorar sandes e a beber sumos da Compal. Ao mesmo tempo dançavam e cantavam, precisamente, esta música. Felicidade plena, ou melhor, momentos de pura felicidade porque chamar a isto "Felicidade Plena" seria o mesmo que acreditar cegamente no paraíso. A meu ver, felicidade são pequenos e fantásticos flashes que, de quando em quando, a vida nos proporciona, e é bom que se saiba aproveitar para mais tarde recordar, párar, sorrir e dizer: eu era Feliz, Sabia, e Aproveitei.
Happiness para si também e bom fim-de-semana.
 
 

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Luzes

Lisboa
e luzes
sobre os meus olhos
Um dia
serei uma estrela.

 

Bom dia e bom trabalho,
 
Katya Figueiredo

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Believe

Tudo é possível
quando o mundo ainda é visível.

Katya Figueiredo

 
Bom dia e bom fim-de semana

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Ela Chama-se Nikon


Boa noite

Estou cansada e a dar corda aos dedos que lutam contra o frio que quase os impede de criar seja o que for mas, sobretudo, estou feliz. Feliz porque acabei de ser mãe duma linda menina. Uma vez que o meu objectivo aqui é fazer arte e não bebés deixe-me esclarecer: a minha linda menina é a máquina fotográfica da foto abaixo. Sim, é mesmo essa, e eu estou completamente babada por ela.

À primeira vista pode parecer uma futilidade «yeh tenho uma máquina nova» mas para mim tem grande importância. Sempre tive gosto pelas artes, o que faz de mim uma mulher de muitas paixões e a fotografia é só uma delas. Lembro-me, na adolescência, quando comprei a minha primeira máquina, vizinhos, familiares e amigos pediam-me para tirar-lhes fotos. Tirava, depois ia revelar e eles pagavam-me pelas fotos. Eu ia a correr comprar mais rolos e a história recomeçava. Gastava parte da minha mesada nisso mas, dava-me muito prazer. Depois da minha primeira máquina seguiram-se outras igualmente pequenas. Esta é a minha primeira semi-profissional. Ora, assim sendo, o meu comportamento de miúda eufórica numa loja de barbies é compreensível. Uma vez que já não posso brincar com barbies: se o fizesse era bem provável que a sociedade me internasse num hospício; visto haver uma idade limite para se brincar com bonecas; arranjei alternativas, a fotografia. Agora seriamente falando; a fotografia é para mim muito mais que uma brincadeira. Aliás, espero, muito em breve, partilhar consigo as fotos da minha próxima aventura. E, provavelmente, serão tiradas com a minha linda menina.
Continuação de boa semana,

 

Katya Figueiredo

sábado, 6 de dezembro de 2014

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Vodafone Mexefesta

Bom dia
O Vodafone Mexefesta já começa invadir a cidade de Lisboa com boa música. Terça-feira ,na estação de Metro da Baixa do Chiado, pude assistir à uma actuação ao vivo dos Mate e Dizzy (Som Mudo).Este projecto,O Vodafone Band Scouting, visa promover sangue novo, isto é, novas bandas. São dezasseis bandas a concurso das quais apenas quatro vão actuar no estúdio da Vodafone FM no Vodafone Mexefest, na Avenida da Liberdade,dias 28 e 29.Eu vou, e espero divertir-me à grande.
 




 
 
Photos by Katya

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Incêndio

Bom dia e bom fim-de- semana.
Quantos litros mais serão precisos,
para apagar o fogo do teu beijo?!
 
Katya Figueiredo

domingo, 9 de novembro de 2014

E Viva os Escritores Angolanos

Bom dia.
Lançamento de livros, obviamente, é dos eventos de que mais gosto ir. Este fim-de-semana tive o privilégio de estar em dois. Na sexta-feira, na livraria Bucholuz de Marquês Pombal, foi o lançamento do livro de contos, Estórias Além do Tempo, com quarenta e duas estórias de vários escritores angolanos a saber: Arnaldo Santos, Carmo Neto, Dario de Melo, Fragata de Morais, Henrique Abranches, Henrique Guerra, Isaquiel Cori, João Melo, João Tala, José Eduardo Agualusa, José Samwila, Luís Fernando, Marta Santos, Ondjaki, Pepetela, Roderick Nehone, Sónia Gomes. Destes grandes escritores angolanos, Pepetela é o meu favorito, mas, infelizmente, não pude ficar até ao fim.Tive mesmo de me ir embora porque tinha algo muito, mas muito importante para fazer. Confesso que fiquei destroçada, mas acredito que haverá uma próxima vez.
Tristezas à parte.Com o Natal à porta é bom começar, caro leitor/a, a pensar em prendas e, porque não este livro?!
 

 
No domingo, no Hotel Real Palácio, foi vez de estar presente no lançamento do Grande Golpe Social, de José Mendonça. Este livro, cujo título bastante apelativo, é a estreia do autor. Como já referi o título é apelativo, a capa é gira e tem cerca de trezentas e dezassete páginas. Quanto ao conteúdo nada posso dizer porque ainda não o li, mas fica aqui a minha sugestão. Parabéns, José Mendonça e bem-vindo a este mundo maravilhoso que é, o da escrita, claro.


 
Photos by Katya
 
7/11/2014 e 9/11/2014

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Uma Aventura em Angola



.

Depois de catorze anos, ausente, pensei que quando fosse para Angola e de lá voltasse teria muito para contar. A verdade é que Angola surpreendeu-me de tal modo que metade do que tinha em mente evaporou-se. Sobre ela pouco tenho a dizer. No entanto, não deixarei de fazer um breve resumo daquilo que foi a minha viagem.


Ao sair do avião, não fui agraciada com o típico bafo quente, que se sente ao chegar à Luanda. Quero com isto dizer, que o tempo estava agradável, nem quente, nem frio. Ao passar pela alfândega, deparei-me com as entidades de saúde ostentando termómetros nas mãos para ir medindo a temperatura a todos os recém- chegados, não fosse a atrevida ébola entrar no país sem consentimento. Passada a Alfândega, chega-me, de todos os lados, aos ouvidos o sotaque angolano, que me é tão familiar. Nessa altura tive plena consciência de que estava mesmo em Angola, não era um sonho e logo quis correr para o avião e voltar para Portugal. Mentira minha, não quis nada.


No exterior do aeroporto, apercebo-me da normal agitação de Luanda, que primeiro estranha-se, depois entranha-se e, ao fim de alguns dias já se consegue andar alguns metros ou talvez quilómetros sozinho/a. Bem, não foi o meu caso. Felizmente andei sempre acompanhada e de carro. Que sorte a minha. Confesso, há sítios que não me atreveria andar sozinha. Foram muitos anos fora, é preciso, aos poucos, redescobrir a cidade.


Também tive oportunidade de visitar a minha terra natal, Kuito/Bié. E esta nunca me decepciona. Continua linda, limpa, salvo excepções, e aos poucos vai crescendo. Quanto aos vestígios de guerra, já são praticamente inexistentes. A cidade está muito mais agitada do que antes. Já não me pude deitar na estrada tranquilamente, devido ao grande fluxo de veículos, como fazíamos quando éramos miúdos.

Como se sabe, Angola é um país em desenvolvimento e, pude sentir uma entrega total, por parte dos angolanos, no que se refere ao progresso. Arrisco mesmo a dizer que, Angola está a ter um crescimento bastante acelerado. O mercado de trabalho é aliciante. A nível profissional, com algum esforço e dedicação, rapidamente alcançaria um nível elevado.

Quando soube que ia para lá, depois de tantos anos fora, imaginei-me uma alienígena, uma quase turista no meu próprio país. Porém, ao contrário do esperado fui muito bem recebida e mimada. Em nenhum momento senti-me excluída, fui até mesmo muito encorajada a ficar por lá. Os serviços públicos estão no bom caminho, muito mais organizados, eficácia e eficiência são as palavras-chave. Desde, o momento em que aterrei, aos dias que lá estive e a altura em que parti, muito tenho que elogiar. As pessoas são prestáveis, o convívio é perfeito e a comida é de comer e chorar por mais, a música fantástica e a dança surpreendente. Quanto aos bens materiais, com excepção a roupa, que é caríssima, penso que já é possível adquirir um pouquinho de tudo sem precisar sair do país. As estradas caminham para perfeição, a terra é fértil, o país é rico em recursos minerais entre outras coisas, o clima no geral é bom, caracterizado por duas estações (chuvas e seca). Um país com tudo o necessário para um futuro brilhante.

Bem, deve estar a perguntar-se e desengane-se se pensa que ainda não me questionei sobre isso, se Angola é assim tão maravilhosa por que é que não volto para lá, construo uma carreira de sucesso ou não, e vivo por lá feliz para sempre?!

Diria que, talvez eu seja demasiado descontraída para um país cheio de vanglórias, demasiado rebelde para aceitar pacificamente algumas regras, a meu ver, patéticas, demasiado revolucionária para compactuar com certas atitudes e alimentar a corrupção, demasiado impressionável para viver bem ignorando o sofrimento do próximo. E por fim, mas não menos importante diria que sou como um pássaro. Para ser feliz preciso de estar livre, voar a meu ritmo e, ainda mais importante, sentir àquela sensação de liberdade, certeza e quietude, que Angola ainda não me consegue proporcionar.

Por norma, enfrento sempre os obstáculos com que me deparo sem grandes receios. Mas quando se trata do meu país, admito, sou cobarde. Por essa ordem, anseio defrontá-lo o mais tarde possível. Para já, fico por cá, no meu segundo país. Mas atenção, não quero com isto dizer, que Angola seja mau país. Muito pelo contrário. Angola é um país lindo, maravilhoso e rico. Tem os seus problemas é certo, mas nada com que não se possa lidar. Por isso, se tiver oportunidade de lá ir, não hesite. Tenho a certeza que não se irá arrepender. Decerto será uma experiência marcante e, quem sabe, se assim o desejar, acabará por lá ficar.

Em última instância, de que mais gostei foi reencontrar amigos e familiares que não via há quase duas décadas. E na hora da partida ter de deixar essas mesmas pessoas também foi o que mais me custou. Resta-me dizer: até daqui a um ano, Angola, ou anos, sabe-se lá.

Katya Figueiredo

Luanda
Luanda
Luanda
Bié/Kuito






  
Bié/Kuito


Bié/Kuito

Bié/Kuito

Bié/Kuito


Bié/Kuito
Bié/Kuito


Jardim da Pouca Vergonha
Bié/Kuito


Bié/Kuito

Ilha de Luanda
Ilha de Luanda


 Falar de Angola também é falar de comida boa
Mufete, prato típico angolano

e de Kizomba, género musical e estilo de dança angolano.

Adeus, Angola, terra boa e viciante
Aeroporto 4 de Fevereiro
 
 Photos by Katya


 

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Memofante para mim

Bom dia
Como deve ter reparado, há quase duas semanas que não escrevo nada. Primeiro porque estava fora do país, segundo porque simplesmente não me apetece. Tudo o que quero, neste momento, é olhar para um ponto fixo e perder horas preciosas a contemplar um vazio. Talvez esteja a precisar de Memofante, Memoenergia, Memovida, Memoredball, Memoextralove ou Memoexercício para ganhar ritmo e pôr os dedinhos fofos a trabalhar.
Quando a relaxada fase da preguiça passar e me sentir capaz de escrever seja o que for, irei falar da minha última aventura. Hoje fique com Last Good Bye, de Jeff Buckley, um tema de que gosto muito e foi óptimo companheiro de viagem.
Tenha um óptimo começo de semana.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

O Esplendor da Rainha (pág 7)


-Que linda negra que tu és

entrei para a camioneta e lá estava o meu admirador que me fez sinal para que me sentasse ao lado dele, aproximou-se um homem de meia idade que me pediu que o deixasse sentar, ia-me levantar quando uma mão na coxa me deteve fazendo sinal com a cabeça para que não me levantasse, e o cinquentão a insultar dizer que fosse para minha terra em vez de estar a ocupar o lugar dele

-Diz-lhe linda que és tão portuguesa quanto ele

eu a chegar à casa procurar semelhanças entre mim e um lápis preto e não encontrar alguma, pegar em meio copo de leite, meio de café juntar num só e ver o que dali resultava, a concluir que o leite nunca mais seria da mesma cor, o café nunca mais teria a cor original, mas o mais importante é que os nutrientes, as vitaminas os ingredientes ainda lá estavam e o sabor até parecia melhorar, a não querer entender mais o que era a cor, o que era a raça, o que eram as diferenças

-Diz-lhe linda, para estares aqui teve de lá ir primeiro um português

apenas a ter a certeza de que o sol não era da cor do céu e ainda assim viviam em harmonia, a terra não era da cor da água no entanto não sobreviveriam uma sem a outra

queria informar a ele que nesta Angola também eu nasci, cresci, sofri, fiz-me mulher e dela fugi, que gerações e gerações brancos, negros de familiares meus por ela lutaram e nada ganharam, que o meu pai a vida a ela entregou, cegamente nela acreditou, veio a doença apanhou-lhe sem piedade e ninguém mais lhe deu valor, acabando pobre e infeliz

fiz as malas mais uma vez e atirei para as costas este bendito país a que certamente também tenho direito, este Portugal a que não posso chamar de meu, pois quando o fiz alguém prontamente advertiu-me que assim não era

e eu a perguntar curiosa aos adultos da família

-É verdade que a minha trisavó é uma rainha negra?

aquando criança sem conseguir perceber o porquê da minha avó não gostar de ter uma mãe princesa

E foi assim que me tornei cidadã do mundo, sem cor, sem terra, sem religião, sem política.
Fim
 
Prólogo

Pensador-escultura em madeira (Angola)

Quissangua-bebida de farinha de milho

Missanga-contas de plástico ou vidro

Cabaça-recipiente feito com a carcaça da abóbora (utilizado para conservar e refrescar líquidos)

Pano do Congo-pano africano

Cacimbo- estação do ano

Chocho- careta acompanhada de som bocal

Matumbo-pessoa sem educação, boçal, néscio
 
Katya Figueiredo

terça-feira, 14 de outubro de 2014

O Esplendor da Rainha (pág 6)


de forma que me lembrei que esta Angola a que não posso chamar de minha porque quando assim o fiz alguém desvairado bateu-me forte na cara dizendo que o país estava a cair em declínio por causa da minha cor que ali não pertencia

(lembro-me da senhora negra como a noite escura, que dizem ser minha bisavó e um dia rainha)

de quem a minha avó nunca quis falar, certa vez mandou-lhe um bilhete para que a fosse visitar porque estava à beira da morte, e ela a imaginar a mãe a abandoná-la, a tia da mãe a lhe implorar que não o fizesse depois às escondidas procurar meu avô que a tomasse como criada para cuidar da sobrinha e ele a ceder, a dar-lhe o diamante, o pensador, quando fez dezoito anos e a contar-lhe toda a história, a falar da verdadeira mãe na sequência da descoberta de sua origem pelos colegas de Lisboa e desde então ser tratada com inferioridade

mãe que não merecia assim ser chamada

a minha avó a irritar-se com o bilhete rasgando-o, deitou ao lixo e ateou-lhe fogo, a procurar uma fita branca com cerca de cinquenta metros e mandá-la de volta com os criados para medirem a minha bisavó o quanto ela teria encolhido até a velhice, ela a sentir uma dor forte quando chegou a resposta e morrer sem nunca conseguir o perdão da filha

-É verdade que a minha trisavó é uma rainha negra?

eu surpreendi-me estática, sem saber o que dizer nem o que pensar limitei-me a levar as mãos à cara o homem desnorteado seguiu seu caminho e desapareceu no meio da multidão que me cercava, despedi-me da minha tia e subi para o avião contente por finalmente me livrar desta bendita terra que me acariciava e maltratava

-Que linda negra que tu és

em Lisboa encostada a paragem a ler, a ser tratada não como branca, não como negra, não como cabrita, não como mulata, não como mestiça mas sim como preta, pior que a minha bisavó, que a tia da minha bisavó, que o Francisco e todos os negros que uma vez me desprezaram, eu a desejar que o senhor parasse se acalmasse e ouvisse que também eu muito tenho para dizer desta Angola que ele pensa ser só sua
To be continued
 
Katya Figueiredo

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O Esplendor da Rainha (pág 5)


(era mais magra, andava mais desajeitada e mal sabia falar)

gritei furioso

-Diz-lhes que já lá vou

e já no quintal, após me certificar que a Amélia não estava por perto começo a barafustar com o Francisco e os restantes criados, pondo-lhes a correr dali para fora, a mãe da Maria a empurrar a neta como a um bicho, a entregar-me porque não queria estragar a raça, não queria brancos na família e a Maria a não contestar, a desprezar-me, a trocar a própria filha por uma pilha de sacos de milho e feijão e eu a odiá-la, a amá-la, a odiá-la ainda mais por amá-la, a minha empregada a pedir que me acalmasse, eu a dizer que casava com ela contra tudo e todos, ela a fingir que me não ouvia, a ajudar a correr comigo e com a filha, enervado na esperança de não voltar a saber dela

-Diz-lhes que nunca mais aqui voltam

eu a fazer o mesmo que eles há dez anos atrás, a ser tão matumbo7 e ignorante quanto eles ou ainda pior

-não quero essa cambada de negros perto da minha filha

e a Maria ao longe lavada em lágrimas, sem coragem para me falar, metida nas vestes de pano de Congo com o andar sedutor que ainda conservara a desaparecer no fundo da rua para nunca mais.

Março de 1994

Quando disse que tinha de me ir embora da Angola para sempre

(estávamos no meu quarto arrumar a roupa e ouvia-se o barrulho das crianças que brincavam janela fora)

a minha tia atirou-me com uma pilha de roupa dobrada para as mãos, virou-se para a cómoda e os dedos desapareceram na gaveta

-A tua terra é aqui

(a voz abafou os gritos das crianças que deixaram-se de ouvir instalando-se um silêncio ensurdecedor)

pouco depois os dedos voltam a aparecer com uma segunda pilha de roupa que deixa cair sobre a cama desfeita

-A tua terra é aqui
To be continued
 
Katya Figueiredo

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O Esplendor da Rainha (pág 4)


Novembro de 1958

O que ela quer de mim depois de tudo? Como ousa agora procurar-me essa bailunda6 infeliz? A pensar que um dia amei-a tanto.

-O que eu sinto por ti, homem nenhum mais cativou em mim.

(estávamos no meio do mato enrolados como um só, e os pássaros que ali queriam pousar surpreendiam-se com os nossos gemidos e batiam assas desvairados pelo céu fora bem longe do nosso alcance. A minha língua procurava a tua que enrolava-se a minha e eu queria arrancá-la mas não conseguia e o corpo aquecia, apertava-te ainda com mais força mergulhando no teu cheiro a natureza, pouco depois, desfalecia no calor do teu peito igualmente o mundo ali falecia. Apresentava-se-me um novo mundo todo sorrisos ao qual tentava decifrar aos poucos)

um vulto aproxima-se da porta do escritório e informa-me que os criados da Maria estão no quintal para ver a Amélia, e uns lábios carnudos tocavam ao de leve nos meus, um corpo esguio de formato viola vira-se e roça-se provocador no meu, volto a virá-lo observo-a do pescoço para baixo e penso como ela é toda mama, não resisto e deixo-me levar pela pele sedosa, dizem trazer uma corda para medi-la

como se a criança fosse gado

os olhos dela suplicam-me para tomá-la ali mesmo no escurinho do canto da despensa da minha mãe, que reduz-se na figura estática da minha empregada especada à porta aguardando uma reacção da minha parte

- O que eu sinto por ti, homem nenhum mais cativou em mim

com receio que aparecesse alguém e descobrisse que ela estava a aprender muito mais do que ler e escrever, e lhe estragasse a oportunidade de mais uma vez atingir o clímax à custa do meu amor

-Ama-me agora meu anjo português

continua especada à porta, mas agora sem jeito, leva as mãos à cabeça, à cintura não sabe mais o que fazer se espera que eu diga algo ou manda-os embora, a Maria a arregaçar os panos e exibir as ancas para mim sem o menor pudor, a empurrar meia dúzia de enlatados para o chão sentar-se na prateleira e puxar-me para junto dela, eu a não me conseguir conter mais, a beijá-la selvaticamente acariciei-lhe o sexo ela gemeu forte e amei-a desenfreadamente
To be continued
Katya Figueiredo

domingo, 5 de outubro de 2014

O Esplendor da Rainha (pág 3)


Passados cinco meses e a perseguição persistia, perguntava a mim mesma o que ele queria de mim. Não dizia nada, só olhava e olhava. No fim de contas uma raiva tremenda começou a crescer em mim, deixei de responder aos seus olhares e, já não sorria para ele.
-Sabe ler e escrever? E se eu lhe ensinasse maneiras de branco!?
Está uma manhã fria de cacimbo7. Vamos para a outra vila, agora. Hoje vou conhecê-la, mas não me vou aproximar, o Francisco vai medi-la para mim. Será estranho ver-me com outra cor, outro cabelo, outros olhos, mas vai valer a pena porque o meu coração finalmente vai deixar de doer. Esta dor que vem do coração e atinge a minha cabeça e o meu corpo, não a posso mais suportar, o fardo é demasiado pesado.
A tia olha-me com desprezo faz um chocho8, cospe no chão e diz
-Desprezaste-a à nascença agora vais visitá-la?
Passados cinco meses e a perseguição persistia, questionava a mim mesma o que queria ele de mim!? Nada dizia, só olhava e olhava. No fim de contas uma raiva tremenda começou a crescer em mim, deixei de ir ao rio. Os dias pareciam ter morrido de tristeza juntamente com o meu coração. O ar me faltava quando a imagem dele escondido atrás dos arbustos invadia a minha mente, agora estou a vê-la meu Deus como é linda. Não pode ser obra dos homens, o Espírito Santo deve ter descido em mim. Aquela menina é minha filha!?
 
-Não pense que uma branca te irá chamar de mãe. Tem o cabelo liso e comprido até a cintura como as mulheres dos colonos.
Vejo o Francisco a tentar medi-la e não consegue. Creio que não o estão a deixar, agora tenho a certeza estão a correr com eles. Meu Deus, por que é que sinto que o meu coração se está a partir e nunca mais conseguirei juntar os pedaços para o compor? E eu a pensar que ao ver-te me iria livrar desta dor. Não posso mais viver, a tua imagem me irá perseguir para todo sempre. Agora sei que morri no dia em que te dei.
To be continued
Katya Figueiredo

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O Esplendor da Rainha (pág 2)


-Não penses que uma branca te irá chamar de mãe. Tem o cabelo liso e comprido até a cintura como as mulheres dos colonos.

Lembro como se fosse hoje. Era muito jovem e ingénua, cresci aprendendo que os mais velhos tinham sempre a razão, sabiam tudo e nunca os devia contrariar. Todas essas coisas me foram ensinadas rigorosamente e eu interiorizei. O que eu não fazia ideia e ninguém nunca me alertou é que ao me desfazer dela estava a vender a minha alma ao diabo.

-Desprezaste-a à nascença agora vais visitá-la?

O meu criado tem tudo arranjado. Previno-o sobre o comprimento da corda, diz-me para não me preocupar pois só tinham passado dez anos. Agora só me resta esperar que a noite caia, ao raiar do sol é preciso partir.

Estava muito bonita nesse dia. Trazia um pano do congo à cintura, outro mais pequeno que me cobria os seios, fios de missangas multicolores sobrepunham-se-me ao pescoço, cujas pontas desciam ao comprido abaixo do umbigo. Uma mão cruzada a cintura apoiada a cabaça5 de quissangua6 quase vazia que levava a caminho do rio. Ao passar pela fazenda dono e empregados paravam de trabalhar para nos ver passar. Nem eu nem as minhas amigas nos retraiamos. Sabíamos de antemão que nos estavam a olhar e gingávamos a cintura com mais energia enquanto cantávamos e ríamos, ríamos e cantávamos.

Um dia reparei que o branco da plantação me seguia discretamente. Não disse nada as outras era o nosso segredo. Os nossos olhares cruzavam-se e eu sentia o corpo a tremer, o coração batia mais rápido e as palavras fugiam-me da boca. Eu ria, ele ria e ficava vermelho. Nunca senti isso com os rapazes da terra.

Começou a aparecer em nossa casa para comprar gado mais vezes, não falava comigo, mas dizia a minha mãe.

-Com todo respeito, que rica filha que você tem rainha.
To be continued
 
Katya Figueiredo

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O Esplendor da Rainha (pág 1)


 

            O Francisco prepara o barbante. Não sei se não será demasiado pequeno para ela, talvez fosse melhor acrescentar mais um pouco.

Este Pensador¹ foi feito pelo soba da aldeia, melhor não há garanto. As suas mãos foram abençoadas por Deus, só pode. Que outra razão justificaria algo assim tão perfeito? Espero que ela saiba que isto

-Desprezaste -a à nascença agora vais visitá-la?

A pedrinha reluz intensamente quando exposta a luz solar. Podia jurar que se a deixasse aqui o dia inteiro, por cima daquela pedra em que os raios beijam descaradamente, o arco-íris se despiria das suas vestes exibindo as suas cores sedutoras no céu. Que outra razão justificaria algo assim tão perfeito? Espero que ela saiba que isto é uma relíquia, digna duma princesa.

-Não pense que uma branca te irá chamar de mãe. Tem o cabelo liso e comprido até a cintura como a mãe de Jesus.


Lembro como se fosse hoje. Era muito jovem e ingénua, cresci aprendendo que os mais velhos tinham sempre a razão, sabiam tudo e nunca os devia contrariar. Todas essas coisas me foram ensinadas rigorosamente e eu interiorizei. O que eu não fazia ideia e ninguém nunca me alertou, é que ao me desfazer dela estava a dar uma parte de
mim.

-Desprezaste-a à nascença agora vais visitá-la?
Estava muito bonita nesse dia. Trazia um pano do congo2 a cintura, outro mais pequeno que me cobria os seios, fios de missangas3 multicolores sobrepunham-se-me ao pescoço, cujas pontas desciam ao comprido abaixo do umbigo. Um chinelo de cabedal enfeitava-me os pés. No centro, bem onde a minha palma se deitava macia sobre ele, um desenho que se me afigurava a Palanca Negra Gigante4. O cabelo em tranças corridas, que desenhavam caminhos até a meio da cabeça terminando em cobras soltas e presas por missangas grandes, que serpenteavam ao sabor do vento. Como eu adorava aquele tilintar das missangas.
To be continued
 
Katya Figueiredo
 
Obs: Conto inspirado no estilo literário de Lobo Antunes. Requer atenção para melhor compreensão do texto.
Ano 2012