sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

A minha náusea


 
Tenho medo das cidades. Mas não posso abandoná-las.     JPSartre 
Sem elas não penso, logo não existo.  
Dantes, via a minha vida passar por elas como um rio, e isso deixava-me deveras feliz. O que eu não percebi logo, é que o rio também se renova. 
Hoje eu estou aqui, é certo. Mas amanhã! O amanhã é uma incógnita. Talvez amanhã esteja morto, e, dar assim lugar a uma nova vida. 
Tenho medo, logo a náusea existe em mim. Nas cidades, sinto-a intensamente. Sinto-a infiltrar-se em mim ao conduzir, ao apanhar o barco, o metro, e ao atravessar a rua. Ao escrever um livro ainda mais. Acabá-lo-ei a tempo? 
Os prédios, os carros, as pessoas e toda esta agitação, causam-me desconforto. 
Sou um ser esquecido e solitário no meio de toda esta multidão. 
Todos os dias vejo cair uma chuva de gente sobre mim, mas não me molho. Logo esta chuva não existe, mas está lá. Vejo-a todos dias no senhor da bicicleta, que apanha o mesmo barco que eu. Ele está lá. Nunca falamos, logo não existe, ou finjo que não existe.  
Vejo-a todos dias na vizinha que sai de casa a mesma hora que eu. Deixei de a ver durante meses. Não questiono o seu paradeiro, ignoro-o ou finjo que nada sei da sua existência, no entanto sei que existe. Vejo-a todos dias no padeiro que sorri para mim. Não sei o seu nome, apenas conheço a voz e o sorriso. Ao deixar a padaria, ele já não existe ou esqueço que existe até ao dia seguinte. 
A náusea apodera-se de mim e repenso toda minha rotina. Daí para frente juro tornar-me num ser melhor. Mas noutro dia volto a acordar cheia de energia e, entusiasmo-me. Ainda estou viva. E todas àquelas promessas já há muito dissiparam-se. Somente quando a náusea mais uma vez se apossar de mim, voltarão. 
Katya Figueiredo 

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Mistério




Sim amamo-nos,

Nos amamos como nunca.

Um fulgor de sentimentos,

Que surgia de forma única.

Era um milagre,

Que ainda não tivéssemos sido asfixiados,

 Pela intensidade de amor.

Cada beijo teu,

Ameaçava ser o último segundo que nos restava.

Pequenas serpentes mornas resvalavam no meu rosto

Estava a chorar.

Olhei-te com arrepios,

Avistei um brilho vacilante em teu olhar,

Que me gelou o sangue.

Mas o que me inspirou maior horror,

Não foi o que via, porém o que sentia.

O meu amor por ti

Era ao mesmo tempo novo e familiar.

Parecia que falavas em voz baixa

Numa língua que me era desconhecida.

Ao deslizarmos vertiginosamente

No limiar da eternidade,

Vieram-se à memória fragmentos

De amores de outros séculos.

Um mistério, que jamais poderei desvendar.

 

Katya Figueiredo

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Melhor prenda de Natal

O que seria a minha vida sem livros?!
Uma horrenda fatia de bolo podre.
Obrigada, Universo.
Obrigada por me teres deixado nascer num mundo de livros.
Ulisses de James Joyce, welcome to my life;)
Katya Figueiredo