quinta-feira, 24 de abril de 2014

E Tudo o Mendigo Levou




“Estava a tomar café em pé quando viu passar, na calçada a rapariga que começara a namorar na véspera. Largou a chávena, largou tudo e atirou-se no seu encalço, quase como um maluco. Tropeça num cavalheiro, esbarra numa senhora, e vai alcançar a rapariga pouco adiante. Caminha lado a lado e faz a alegre pergunta":

---Como vai o meu lindo amor?”

Continuação…

---Linda sou de certeza, mas teu amor?! Faça-me o favor.---Respondeu ela com uma expressão de desprezo.

João sem saber o que dizer muito menos o que pensar, limitou-se a contemplá-la boquiaberto.

---Sais-me da frente se faz favor?

A rapariga agarra na mão do rapaz, que acabara de chegar, e saem dali, para fora.

João leva a mão ao cabelo e mantém-se estático durante alguns minutos.

O mendigo sentado na calçada observa e diverte-se com toda àquela cena.

---Faz-te homem e corre atrás do teu lindo amor, pá.

João olha para cima dos ombros e vê o mendigo a rir enquanto devora uma sandes. Caminha até ele e senta-se a seu lado. Este dá-lhe uma palmadinha nas costas e oferece-lhe a outra sandes de queijo, que tinha guardada.

João agradece, mas recusa, pois tomara o café da manhã pouco antes.

---Achas mesmo que deveria ter ido atrás dela?

---Sabes, daqui do meu canto estive à avaliar a mercadoria e parece ser de qualidade. Porém, meu caro amigo, nem todo ouro brilha por baixo dos lençóis.

---Sábias palavras, meu caro amigo, sábias palavras.---Disse ele dando-lhe palmadas nas costas.

Levantou-se, tirou uma nota de dez euros do bolso e deu-lhe.

---Fica bem, meu caro amigo.

---Vai espairecer, meu caro amigo. Pode ser que nesse curto trajecto encontres um novo lindo amor.— Disse rindo.

João acenou, pós as mãos nos bolsos e desceu a rua a dançar, mas com o coração desfeito.

Nos dias que se seguiram, Maria andou desvairadamente em busca de João para se explicar. Essas tentativas não tiveram o resultado esperado, ele não a queria ver de maneira nenhuma. Ligou-lhe bastas vezes, mas este nunca atendeu o telemóvel. No entanto, não desistiu e começou a mandar-lhe mensagens todos os dia, certa de que o reconquistaria.

As mensagens logo se tornaram uma necessidade. Maria estava obviamente apaixonada por João. Havia dias que chorava de saudades no seu travesseiro rezando que chegasse logo o dia seguinte para enviar a próxima mensagem. Este hábito, para ela, tornou-se a melhor hora do dia.

Chegou o Natal e decidiu surpreendê-lo. Vestiu uma lingerie vermelha tirou uma foto e enviou-a como prenda de Natal. No Ano Novo voltou a vestir uma lingerie, desta vez azul, e enviou-a. No dia dos namorados mais uma vez vestiu uma lingerie, agora rosa, e enviou-a.

Um mês depois, andava na Fnac a fazer tempo enquanto esperava uma amiga que se atrasara e, resolveu mandar uma segunda mensagem nesse dia.

Amo-te.

Como todas outras vezes não estava à espera que ele lhe respondesse. Quando percebeu que era uma mensagem dele os olhos brilharam-se-lhe.Com o coração a bater respirou fundo antes de a ler.

Deve haver algum engano. Desde que comprei este telemóvel recebo mensagens deste número. Agradecia que confirmasse o destinatário.

Ao ler desconcertante mensagem quase teve um ataque. Recompôs-se, voltou a respirar fundo e começou a pensar com alguma clareza até que por fim decidiu responder a mensagem.

Não, não. É este o número. Há quanto tempo foi isso?

Então não sei. Agradecia que parasse de me enviar mensagem.

Maria deixou cair o livro que tinha nas mãos, saiu correndo, chegou à casa fechou-se no quarto e chorou o dia todo.

Num lindo dia de sol, Maria passa pela rua que evitara nos últimos tempos porque lhe traziam más recordações, sentou no café com a amiga e pediu um chocolate quente. De repente, olha para frente e vê João passar. Abandona a amiga, sai esbaforida, atropela o empregado fazendo com que este levasse o tabuleiro ao chão, esbarra numa criança, pede desculpa, mas prossegue o seu caminho.

---Como vai o meu lindo sacana?!

---Óptimo. E como vai a minha linda rameira?

---Como te atreves a expor-me dessa maneira. Dizias tu gostar de mim.

---Desculpa?!---inquiriu o João irritado.

---Mandei-te mensagens este tempo todo para depois ficar a saber que supostamente não era o teu número.

---Tive de mudar de número desde a última vez que te vi. Perdi o telemóvel.

---E eu feito parva continuei a mandar-te mensagens.

---Depois do que aconteceu não achei necessário dar-te o meu novo número.

O mendigo que mais uma vez observava a cena levantou-se e foi ter com eles.

---Olá, meu caro amigo.

---Olá. Já falo consigo agora tenho de aturar esta rameira.---Troçou.

---É importante. Tenho aqui o teu telemóvel. Deixaste-o cair no outro dia. Lembras-te?---disse-lhe dando uma palmada nas costas.---Maria meu lindo amor---,disse deliciado olhando para Maria--- que bela mercadoria---continuou piscando o olho ao João, que retribuiu sorrindo com cumplicidade.

Esta, com o rosto ruborizado de vergonha desejando que o chão se abrisse e nele se pudesse esconder, mal podia acreditar que realmente tivera exposto toda sua intimidade a um estranho.

Fim
Katya Figueiredo

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