terça-feira, 23 de setembro de 2014

Sem Palavras

A mãe estava na cozinha entretida nos seus afazeres domésticos. Entre esfregonas e máquinas por lavar tentava a todo custo desembaraçar-se de tudo de modo a ter, a tempo e horas, a comida à mesa.
O filho inquieto aproximou-se da porta da cozinha e perguntou:
- Mãe, o que é o almoço?
A mãe alheada a tudo à sua volta ouviu-o mas ignorou-o e continuou a limpar. Ele nada satisfeito repetiu a pergunta encostando-se à parede com as pernas e braços cruzados. Ela impaciente olhou-o de soslaio e respondeu num tom intimidador:
- Não sei.
- Mamã !!!. Advertiu a criança arregalando uma sobrancelha e torcendo a boca numa careta de protesto, porém, ela não se deixou intimidar e prosseguiu as limpezas. Este percebendo que dela nada iria conseguir suavizou o rosto, mudou a postura e resolveu cobri-la de mimos e exagerados elogios enquanto à abraçava, a ver se conseguia a resposta que buscava.
             -Vá lá mamã diz-me.
- Deixa-te lá disso. Tens dez anos, já não és nenhum bebé.
-Diz-me, diz-me, por favor, diz-me. Insistiu ele posicionando as mãos tal e qual um cachorro.        
Ela achou engraçada a atitude do filho. Conhecia-o bem, por isso mesmo, sabia de antemão que tudo não passava de chantagem emocional e, não lhe ia, de modo algum, facilitar a vida. Para o contrariar e deixá-lo ainda mais curioso abraçou-o, dando-lhe uma palmada nas costas e disse:
-Não faço a mínima ideia, filhinho querido mamã.
Ele irritado retirou a bandeira branca, do género “acabou-se o cessar- fogo” e, como se declarasse guerra mergulhou numa cantoria insuportável repetindo incansavelmente a mesma pergunta. A mãe farta de ouvi-lo suspirou simulando descontentamento por não conseguir resistir às suas investidas e disse:
-Ainda não sei. Tenho de ir a rua caçar, quando voltar digo-te o que cacei.
Com um sorriso sarcástico virou-lhe às costas. Para seu espanto ele proferiu um simples «okay» e saiu em direcção a sala onde se sentou e continuou a ver os seus desenhos animados preferidos.
A mãe vitoriosa sorriu de contentamento, por finalmente ver-se livre dele e assim deu o assunto por encerrado.
Meia hora se tinha passado. A mulher dirigiu-se ao compartimento donde se encontrava o marido e comunicou-lhe que iria ao Supermercado comprar alguns ingredientes em falta. Depressa despediu-se de todos e foi buscar a mala e as chaves do carro.
Ao sair bateu com a porta gritando alto e em bom som «Até já amor». Sem esperar que alguém lhe respondesse desceu as escadas a correr e, já ia embalada para lá abaixo chegar em tempo record, quando ouviu novamente a porta abrir-se e uma voz estrídula por detrás gritar:
- Mamã.
Ela deteve-se de imediato no corrimão e impaciente respondeu no mesmo tom:
- O que é?
Ele com um ar solene levantou os braços simulando desapontamento e disse:
- Então!?Esqueceste-te da caçadeira.
Por uns segundos questionou-se, mas não demorou e caiu em si relembrando a conversa que teve com o filho, na cozinha, minutos antes. Pouco depois, desfez-se numa sonora gargalhada que a acompanhou escadas abaixo.
Fim

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