segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Memofante para mim

Bom dia
Como deve ter reparado, há quase duas semanas que não escrevo nada. Primeiro porque estava fora do país, segundo porque simplesmente não me apetece. Tudo o que quero, neste momento, é olhar para um ponto fixo e perder horas preciosas a contemplar um vazio. Talvez esteja a precisar de Memofante, Memoenergia, Memovida, Memoredball, Memoextralove ou Memoexercício para ganhar ritmo e pôr os dedinhos fofos a trabalhar.
Quando a relaxada fase da preguiça passar e me sentir capaz de escrever seja o que for, irei falar da minha última aventura. Hoje fique com Last Good Bye, de Jeff Buckley, um tema de que gosto muito e foi óptimo companheiro de viagem.
Tenha um óptimo começo de semana.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

O Esplendor da Rainha (pág 7)


-Que linda negra que tu és

entrei para a camioneta e lá estava o meu admirador que me fez sinal para que me sentasse ao lado dele, aproximou-se um homem de meia idade que me pediu que o deixasse sentar, ia-me levantar quando uma mão na coxa me deteve fazendo sinal com a cabeça para que não me levantasse, e o cinquentão a insultar dizer que fosse para minha terra em vez de estar a ocupar o lugar dele

-Diz-lhe linda que és tão portuguesa quanto ele

eu a chegar à casa procurar semelhanças entre mim e um lápis preto e não encontrar alguma, pegar em meio copo de leite, meio de café juntar num só e ver o que dali resultava, a concluir que o leite nunca mais seria da mesma cor, o café nunca mais teria a cor original, mas o mais importante é que os nutrientes, as vitaminas os ingredientes ainda lá estavam e o sabor até parecia melhorar, a não querer entender mais o que era a cor, o que era a raça, o que eram as diferenças

-Diz-lhe linda, para estares aqui teve de lá ir primeiro um português

apenas a ter a certeza de que o sol não era da cor do céu e ainda assim viviam em harmonia, a terra não era da cor da água no entanto não sobreviveriam uma sem a outra

queria informar a ele que nesta Angola também eu nasci, cresci, sofri, fiz-me mulher e dela fugi, que gerações e gerações brancos, negros de familiares meus por ela lutaram e nada ganharam, que o meu pai a vida a ela entregou, cegamente nela acreditou, veio a doença apanhou-lhe sem piedade e ninguém mais lhe deu valor, acabando pobre e infeliz

fiz as malas mais uma vez e atirei para as costas este bendito país a que certamente também tenho direito, este Portugal a que não posso chamar de meu, pois quando o fiz alguém prontamente advertiu-me que assim não era

e eu a perguntar curiosa aos adultos da família

-É verdade que a minha trisavó é uma rainha negra?

aquando criança sem conseguir perceber o porquê da minha avó não gostar de ter uma mãe princesa

E foi assim que me tornei cidadã do mundo, sem cor, sem terra, sem religião, sem política.
Fim
 
Prólogo

Pensador-escultura em madeira (Angola)

Quissangua-bebida de farinha de milho

Missanga-contas de plástico ou vidro

Cabaça-recipiente feito com a carcaça da abóbora (utilizado para conservar e refrescar líquidos)

Pano do Congo-pano africano

Cacimbo- estação do ano

Chocho- careta acompanhada de som bocal

Matumbo-pessoa sem educação, boçal, néscio
 
Katya Figueiredo

terça-feira, 14 de outubro de 2014

O Esplendor da Rainha (pág 6)


de forma que me lembrei que esta Angola a que não posso chamar de minha porque quando assim o fiz alguém desvairado bateu-me forte na cara dizendo que o país estava a cair em declínio por causa da minha cor que ali não pertencia

(lembro-me da senhora negra como a noite escura, que dizem ser minha bisavó e um dia rainha)

de quem a minha avó nunca quis falar, certa vez mandou-lhe um bilhete para que a fosse visitar porque estava à beira da morte, e ela a imaginar a mãe a abandoná-la, a tia da mãe a lhe implorar que não o fizesse depois às escondidas procurar meu avô que a tomasse como criada para cuidar da sobrinha e ele a ceder, a dar-lhe o diamante, o pensador, quando fez dezoito anos e a contar-lhe toda a história, a falar da verdadeira mãe na sequência da descoberta de sua origem pelos colegas de Lisboa e desde então ser tratada com inferioridade

mãe que não merecia assim ser chamada

a minha avó a irritar-se com o bilhete rasgando-o, deitou ao lixo e ateou-lhe fogo, a procurar uma fita branca com cerca de cinquenta metros e mandá-la de volta com os criados para medirem a minha bisavó o quanto ela teria encolhido até a velhice, ela a sentir uma dor forte quando chegou a resposta e morrer sem nunca conseguir o perdão da filha

-É verdade que a minha trisavó é uma rainha negra?

eu surpreendi-me estática, sem saber o que dizer nem o que pensar limitei-me a levar as mãos à cara o homem desnorteado seguiu seu caminho e desapareceu no meio da multidão que me cercava, despedi-me da minha tia e subi para o avião contente por finalmente me livrar desta bendita terra que me acariciava e maltratava

-Que linda negra que tu és

em Lisboa encostada a paragem a ler, a ser tratada não como branca, não como negra, não como cabrita, não como mulata, não como mestiça mas sim como preta, pior que a minha bisavó, que a tia da minha bisavó, que o Francisco e todos os negros que uma vez me desprezaram, eu a desejar que o senhor parasse se acalmasse e ouvisse que também eu muito tenho para dizer desta Angola que ele pensa ser só sua
To be continued
 
Katya Figueiredo

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O Esplendor da Rainha (pág 5)


(era mais magra, andava mais desajeitada e mal sabia falar)

gritei furioso

-Diz-lhes que já lá vou

e já no quintal, após me certificar que a Amélia não estava por perto começo a barafustar com o Francisco e os restantes criados, pondo-lhes a correr dali para fora, a mãe da Maria a empurrar a neta como a um bicho, a entregar-me porque não queria estragar a raça, não queria brancos na família e a Maria a não contestar, a desprezar-me, a trocar a própria filha por uma pilha de sacos de milho e feijão e eu a odiá-la, a amá-la, a odiá-la ainda mais por amá-la, a minha empregada a pedir que me acalmasse, eu a dizer que casava com ela contra tudo e todos, ela a fingir que me não ouvia, a ajudar a correr comigo e com a filha, enervado na esperança de não voltar a saber dela

-Diz-lhes que nunca mais aqui voltam

eu a fazer o mesmo que eles há dez anos atrás, a ser tão matumbo7 e ignorante quanto eles ou ainda pior

-não quero essa cambada de negros perto da minha filha

e a Maria ao longe lavada em lágrimas, sem coragem para me falar, metida nas vestes de pano de Congo com o andar sedutor que ainda conservara a desaparecer no fundo da rua para nunca mais.

Março de 1994

Quando disse que tinha de me ir embora da Angola para sempre

(estávamos no meu quarto arrumar a roupa e ouvia-se o barrulho das crianças que brincavam janela fora)

a minha tia atirou-me com uma pilha de roupa dobrada para as mãos, virou-se para a cómoda e os dedos desapareceram na gaveta

-A tua terra é aqui

(a voz abafou os gritos das crianças que deixaram-se de ouvir instalando-se um silêncio ensurdecedor)

pouco depois os dedos voltam a aparecer com uma segunda pilha de roupa que deixa cair sobre a cama desfeita

-A tua terra é aqui
To be continued
 
Katya Figueiredo

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O Esplendor da Rainha (pág 4)


Novembro de 1958

O que ela quer de mim depois de tudo? Como ousa agora procurar-me essa bailunda6 infeliz? A pensar que um dia amei-a tanto.

-O que eu sinto por ti, homem nenhum mais cativou em mim.

(estávamos no meio do mato enrolados como um só, e os pássaros que ali queriam pousar surpreendiam-se com os nossos gemidos e batiam assas desvairados pelo céu fora bem longe do nosso alcance. A minha língua procurava a tua que enrolava-se a minha e eu queria arrancá-la mas não conseguia e o corpo aquecia, apertava-te ainda com mais força mergulhando no teu cheiro a natureza, pouco depois, desfalecia no calor do teu peito igualmente o mundo ali falecia. Apresentava-se-me um novo mundo todo sorrisos ao qual tentava decifrar aos poucos)

um vulto aproxima-se da porta do escritório e informa-me que os criados da Maria estão no quintal para ver a Amélia, e uns lábios carnudos tocavam ao de leve nos meus, um corpo esguio de formato viola vira-se e roça-se provocador no meu, volto a virá-lo observo-a do pescoço para baixo e penso como ela é toda mama, não resisto e deixo-me levar pela pele sedosa, dizem trazer uma corda para medi-la

como se a criança fosse gado

os olhos dela suplicam-me para tomá-la ali mesmo no escurinho do canto da despensa da minha mãe, que reduz-se na figura estática da minha empregada especada à porta aguardando uma reacção da minha parte

- O que eu sinto por ti, homem nenhum mais cativou em mim

com receio que aparecesse alguém e descobrisse que ela estava a aprender muito mais do que ler e escrever, e lhe estragasse a oportunidade de mais uma vez atingir o clímax à custa do meu amor

-Ama-me agora meu anjo português

continua especada à porta, mas agora sem jeito, leva as mãos à cabeça, à cintura não sabe mais o que fazer se espera que eu diga algo ou manda-os embora, a Maria a arregaçar os panos e exibir as ancas para mim sem o menor pudor, a empurrar meia dúzia de enlatados para o chão sentar-se na prateleira e puxar-me para junto dela, eu a não me conseguir conter mais, a beijá-la selvaticamente acariciei-lhe o sexo ela gemeu forte e amei-a desenfreadamente
To be continued
Katya Figueiredo

domingo, 5 de outubro de 2014

O Esplendor da Rainha (pág 3)


Passados cinco meses e a perseguição persistia, perguntava a mim mesma o que ele queria de mim. Não dizia nada, só olhava e olhava. No fim de contas uma raiva tremenda começou a crescer em mim, deixei de responder aos seus olhares e, já não sorria para ele.
-Sabe ler e escrever? E se eu lhe ensinasse maneiras de branco!?
Está uma manhã fria de cacimbo7. Vamos para a outra vila, agora. Hoje vou conhecê-la, mas não me vou aproximar, o Francisco vai medi-la para mim. Será estranho ver-me com outra cor, outro cabelo, outros olhos, mas vai valer a pena porque o meu coração finalmente vai deixar de doer. Esta dor que vem do coração e atinge a minha cabeça e o meu corpo, não a posso mais suportar, o fardo é demasiado pesado.
A tia olha-me com desprezo faz um chocho8, cospe no chão e diz
-Desprezaste-a à nascença agora vais visitá-la?
Passados cinco meses e a perseguição persistia, questionava a mim mesma o que queria ele de mim!? Nada dizia, só olhava e olhava. No fim de contas uma raiva tremenda começou a crescer em mim, deixei de ir ao rio. Os dias pareciam ter morrido de tristeza juntamente com o meu coração. O ar me faltava quando a imagem dele escondido atrás dos arbustos invadia a minha mente, agora estou a vê-la meu Deus como é linda. Não pode ser obra dos homens, o Espírito Santo deve ter descido em mim. Aquela menina é minha filha!?
 
-Não pense que uma branca te irá chamar de mãe. Tem o cabelo liso e comprido até a cintura como as mulheres dos colonos.
Vejo o Francisco a tentar medi-la e não consegue. Creio que não o estão a deixar, agora tenho a certeza estão a correr com eles. Meu Deus, por que é que sinto que o meu coração se está a partir e nunca mais conseguirei juntar os pedaços para o compor? E eu a pensar que ao ver-te me iria livrar desta dor. Não posso mais viver, a tua imagem me irá perseguir para todo sempre. Agora sei que morri no dia em que te dei.
To be continued
Katya Figueiredo

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O Esplendor da Rainha (pág 2)


-Não penses que uma branca te irá chamar de mãe. Tem o cabelo liso e comprido até a cintura como as mulheres dos colonos.

Lembro como se fosse hoje. Era muito jovem e ingénua, cresci aprendendo que os mais velhos tinham sempre a razão, sabiam tudo e nunca os devia contrariar. Todas essas coisas me foram ensinadas rigorosamente e eu interiorizei. O que eu não fazia ideia e ninguém nunca me alertou é que ao me desfazer dela estava a vender a minha alma ao diabo.

-Desprezaste-a à nascença agora vais visitá-la?

O meu criado tem tudo arranjado. Previno-o sobre o comprimento da corda, diz-me para não me preocupar pois só tinham passado dez anos. Agora só me resta esperar que a noite caia, ao raiar do sol é preciso partir.

Estava muito bonita nesse dia. Trazia um pano do congo à cintura, outro mais pequeno que me cobria os seios, fios de missangas multicolores sobrepunham-se-me ao pescoço, cujas pontas desciam ao comprido abaixo do umbigo. Uma mão cruzada a cintura apoiada a cabaça5 de quissangua6 quase vazia que levava a caminho do rio. Ao passar pela fazenda dono e empregados paravam de trabalhar para nos ver passar. Nem eu nem as minhas amigas nos retraiamos. Sabíamos de antemão que nos estavam a olhar e gingávamos a cintura com mais energia enquanto cantávamos e ríamos, ríamos e cantávamos.

Um dia reparei que o branco da plantação me seguia discretamente. Não disse nada as outras era o nosso segredo. Os nossos olhares cruzavam-se e eu sentia o corpo a tremer, o coração batia mais rápido e as palavras fugiam-me da boca. Eu ria, ele ria e ficava vermelho. Nunca senti isso com os rapazes da terra.

Começou a aparecer em nossa casa para comprar gado mais vezes, não falava comigo, mas dizia a minha mãe.

-Com todo respeito, que rica filha que você tem rainha.
To be continued
 
Katya Figueiredo

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O Esplendor da Rainha (pág 1)


 

            O Francisco prepara o barbante. Não sei se não será demasiado pequeno para ela, talvez fosse melhor acrescentar mais um pouco.

Este Pensador¹ foi feito pelo soba da aldeia, melhor não há garanto. As suas mãos foram abençoadas por Deus, só pode. Que outra razão justificaria algo assim tão perfeito? Espero que ela saiba que isto

-Desprezaste -a à nascença agora vais visitá-la?

A pedrinha reluz intensamente quando exposta a luz solar. Podia jurar que se a deixasse aqui o dia inteiro, por cima daquela pedra em que os raios beijam descaradamente, o arco-íris se despiria das suas vestes exibindo as suas cores sedutoras no céu. Que outra razão justificaria algo assim tão perfeito? Espero que ela saiba que isto é uma relíquia, digna duma princesa.

-Não pense que uma branca te irá chamar de mãe. Tem o cabelo liso e comprido até a cintura como a mãe de Jesus.


Lembro como se fosse hoje. Era muito jovem e ingénua, cresci aprendendo que os mais velhos tinham sempre a razão, sabiam tudo e nunca os devia contrariar. Todas essas coisas me foram ensinadas rigorosamente e eu interiorizei. O que eu não fazia ideia e ninguém nunca me alertou, é que ao me desfazer dela estava a dar uma parte de
mim.

-Desprezaste-a à nascença agora vais visitá-la?
Estava muito bonita nesse dia. Trazia um pano do congo2 a cintura, outro mais pequeno que me cobria os seios, fios de missangas3 multicolores sobrepunham-se-me ao pescoço, cujas pontas desciam ao comprido abaixo do umbigo. Um chinelo de cabedal enfeitava-me os pés. No centro, bem onde a minha palma se deitava macia sobre ele, um desenho que se me afigurava a Palanca Negra Gigante4. O cabelo em tranças corridas, que desenhavam caminhos até a meio da cabeça terminando em cobras soltas e presas por missangas grandes, que serpenteavam ao sabor do vento. Como eu adorava aquele tilintar das missangas.
To be continued
 
Katya Figueiredo
 
Obs: Conto inspirado no estilo literário de Lobo Antunes. Requer atenção para melhor compreensão do texto.
Ano 2012