sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O Esplendor da Rainha (pág 2)


-Não penses que uma branca te irá chamar de mãe. Tem o cabelo liso e comprido até a cintura como as mulheres dos colonos.

Lembro como se fosse hoje. Era muito jovem e ingénua, cresci aprendendo que os mais velhos tinham sempre a razão, sabiam tudo e nunca os devia contrariar. Todas essas coisas me foram ensinadas rigorosamente e eu interiorizei. O que eu não fazia ideia e ninguém nunca me alertou é que ao me desfazer dela estava a vender a minha alma ao diabo.

-Desprezaste-a à nascença agora vais visitá-la?

O meu criado tem tudo arranjado. Previno-o sobre o comprimento da corda, diz-me para não me preocupar pois só tinham passado dez anos. Agora só me resta esperar que a noite caia, ao raiar do sol é preciso partir.

Estava muito bonita nesse dia. Trazia um pano do congo à cintura, outro mais pequeno que me cobria os seios, fios de missangas multicolores sobrepunham-se-me ao pescoço, cujas pontas desciam ao comprido abaixo do umbigo. Uma mão cruzada a cintura apoiada a cabaça5 de quissangua6 quase vazia que levava a caminho do rio. Ao passar pela fazenda dono e empregados paravam de trabalhar para nos ver passar. Nem eu nem as minhas amigas nos retraiamos. Sabíamos de antemão que nos estavam a olhar e gingávamos a cintura com mais energia enquanto cantávamos e ríamos, ríamos e cantávamos.

Um dia reparei que o branco da plantação me seguia discretamente. Não disse nada as outras era o nosso segredo. Os nossos olhares cruzavam-se e eu sentia o corpo a tremer, o coração batia mais rápido e as palavras fugiam-me da boca. Eu ria, ele ria e ficava vermelho. Nunca senti isso com os rapazes da terra.

Começou a aparecer em nossa casa para comprar gado mais vezes, não falava comigo, mas dizia a minha mãe.

-Com todo respeito, que rica filha que você tem rainha.
To be continued
 
Katya Figueiredo

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