quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O Esplendor da Rainha (pág 1)


 

            O Francisco prepara o barbante. Não sei se não será demasiado pequeno para ela, talvez fosse melhor acrescentar mais um pouco.

Este Pensador¹ foi feito pelo soba da aldeia, melhor não há garanto. As suas mãos foram abençoadas por Deus, só pode. Que outra razão justificaria algo assim tão perfeito? Espero que ela saiba que isto

-Desprezaste -a à nascença agora vais visitá-la?

A pedrinha reluz intensamente quando exposta a luz solar. Podia jurar que se a deixasse aqui o dia inteiro, por cima daquela pedra em que os raios beijam descaradamente, o arco-íris se despiria das suas vestes exibindo as suas cores sedutoras no céu. Que outra razão justificaria algo assim tão perfeito? Espero que ela saiba que isto é uma relíquia, digna duma princesa.

-Não pense que uma branca te irá chamar de mãe. Tem o cabelo liso e comprido até a cintura como a mãe de Jesus.


Lembro como se fosse hoje. Era muito jovem e ingénua, cresci aprendendo que os mais velhos tinham sempre a razão, sabiam tudo e nunca os devia contrariar. Todas essas coisas me foram ensinadas rigorosamente e eu interiorizei. O que eu não fazia ideia e ninguém nunca me alertou, é que ao me desfazer dela estava a dar uma parte de
mim.

-Desprezaste-a à nascença agora vais visitá-la?
Estava muito bonita nesse dia. Trazia um pano do congo2 a cintura, outro mais pequeno que me cobria os seios, fios de missangas3 multicolores sobrepunham-se-me ao pescoço, cujas pontas desciam ao comprido abaixo do umbigo. Um chinelo de cabedal enfeitava-me os pés. No centro, bem onde a minha palma se deitava macia sobre ele, um desenho que se me afigurava a Palanca Negra Gigante4. O cabelo em tranças corridas, que desenhavam caminhos até a meio da cabeça terminando em cobras soltas e presas por missangas grandes, que serpenteavam ao sabor do vento. Como eu adorava aquele tilintar das missangas.
To be continued
 
Katya Figueiredo
 
Obs: Conto inspirado no estilo literário de Lobo Antunes. Requer atenção para melhor compreensão do texto.
Ano 2012


Sem comentários:

Enviar um comentário