segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O Esplendor da Rainha (pág 5)


(era mais magra, andava mais desajeitada e mal sabia falar)

gritei furioso

-Diz-lhes que já lá vou

e já no quintal, após me certificar que a Amélia não estava por perto começo a barafustar com o Francisco e os restantes criados, pondo-lhes a correr dali para fora, a mãe da Maria a empurrar a neta como a um bicho, a entregar-me porque não queria estragar a raça, não queria brancos na família e a Maria a não contestar, a desprezar-me, a trocar a própria filha por uma pilha de sacos de milho e feijão e eu a odiá-la, a amá-la, a odiá-la ainda mais por amá-la, a minha empregada a pedir que me acalmasse, eu a dizer que casava com ela contra tudo e todos, ela a fingir que me não ouvia, a ajudar a correr comigo e com a filha, enervado na esperança de não voltar a saber dela

-Diz-lhes que nunca mais aqui voltam

eu a fazer o mesmo que eles há dez anos atrás, a ser tão matumbo7 e ignorante quanto eles ou ainda pior

-não quero essa cambada de negros perto da minha filha

e a Maria ao longe lavada em lágrimas, sem coragem para me falar, metida nas vestes de pano de Congo com o andar sedutor que ainda conservara a desaparecer no fundo da rua para nunca mais.

Março de 1994

Quando disse que tinha de me ir embora da Angola para sempre

(estávamos no meu quarto arrumar a roupa e ouvia-se o barrulho das crianças que brincavam janela fora)

a minha tia atirou-me com uma pilha de roupa dobrada para as mãos, virou-se para a cómoda e os dedos desapareceram na gaveta

-A tua terra é aqui

(a voz abafou os gritos das crianças que deixaram-se de ouvir instalando-se um silêncio ensurdecedor)

pouco depois os dedos voltam a aparecer com uma segunda pilha de roupa que deixa cair sobre a cama desfeita

-A tua terra é aqui
To be continued
 
Katya Figueiredo

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