terça-feira, 14 de outubro de 2014

O Esplendor da Rainha (pág 6)


de forma que me lembrei que esta Angola a que não posso chamar de minha porque quando assim o fiz alguém desvairado bateu-me forte na cara dizendo que o país estava a cair em declínio por causa da minha cor que ali não pertencia

(lembro-me da senhora negra como a noite escura, que dizem ser minha bisavó e um dia rainha)

de quem a minha avó nunca quis falar, certa vez mandou-lhe um bilhete para que a fosse visitar porque estava à beira da morte, e ela a imaginar a mãe a abandoná-la, a tia da mãe a lhe implorar que não o fizesse depois às escondidas procurar meu avô que a tomasse como criada para cuidar da sobrinha e ele a ceder, a dar-lhe o diamante, o pensador, quando fez dezoito anos e a contar-lhe toda a história, a falar da verdadeira mãe na sequência da descoberta de sua origem pelos colegas de Lisboa e desde então ser tratada com inferioridade

mãe que não merecia assim ser chamada

a minha avó a irritar-se com o bilhete rasgando-o, deitou ao lixo e ateou-lhe fogo, a procurar uma fita branca com cerca de cinquenta metros e mandá-la de volta com os criados para medirem a minha bisavó o quanto ela teria encolhido até a velhice, ela a sentir uma dor forte quando chegou a resposta e morrer sem nunca conseguir o perdão da filha

-É verdade que a minha trisavó é uma rainha negra?

eu surpreendi-me estática, sem saber o que dizer nem o que pensar limitei-me a levar as mãos à cara o homem desnorteado seguiu seu caminho e desapareceu no meio da multidão que me cercava, despedi-me da minha tia e subi para o avião contente por finalmente me livrar desta bendita terra que me acariciava e maltratava

-Que linda negra que tu és

em Lisboa encostada a paragem a ler, a ser tratada não como branca, não como negra, não como cabrita, não como mulata, não como mestiça mas sim como preta, pior que a minha bisavó, que a tia da minha bisavó, que o Francisco e todos os negros que uma vez me desprezaram, eu a desejar que o senhor parasse se acalmasse e ouvisse que também eu muito tenho para dizer desta Angola que ele pensa ser só sua
To be continued
 
Katya Figueiredo

Sem comentários:

Enviar um comentário