quinta-feira, 16 de outubro de 2014

O Esplendor da Rainha (pág 7)


-Que linda negra que tu és

entrei para a camioneta e lá estava o meu admirador que me fez sinal para que me sentasse ao lado dele, aproximou-se um homem de meia idade que me pediu que o deixasse sentar, ia-me levantar quando uma mão na coxa me deteve fazendo sinal com a cabeça para que não me levantasse, e o cinquentão a insultar dizer que fosse para minha terra em vez de estar a ocupar o lugar dele

-Diz-lhe linda que és tão portuguesa quanto ele

eu a chegar à casa procurar semelhanças entre mim e um lápis preto e não encontrar alguma, pegar em meio copo de leite, meio de café juntar num só e ver o que dali resultava, a concluir que o leite nunca mais seria da mesma cor, o café nunca mais teria a cor original, mas o mais importante é que os nutrientes, as vitaminas os ingredientes ainda lá estavam e o sabor até parecia melhorar, a não querer entender mais o que era a cor, o que era a raça, o que eram as diferenças

-Diz-lhe linda, para estares aqui teve de lá ir primeiro um português

apenas a ter a certeza de que o sol não era da cor do céu e ainda assim viviam em harmonia, a terra não era da cor da água no entanto não sobreviveriam uma sem a outra

queria informar a ele que nesta Angola também eu nasci, cresci, sofri, fiz-me mulher e dela fugi, que gerações e gerações brancos, negros de familiares meus por ela lutaram e nada ganharam, que o meu pai a vida a ela entregou, cegamente nela acreditou, veio a doença apanhou-lhe sem piedade e ninguém mais lhe deu valor, acabando pobre e infeliz

fiz as malas mais uma vez e atirei para as costas este bendito país a que certamente também tenho direito, este Portugal a que não posso chamar de meu, pois quando o fiz alguém prontamente advertiu-me que assim não era

e eu a perguntar curiosa aos adultos da família

-É verdade que a minha trisavó é uma rainha negra?

aquando criança sem conseguir perceber o porquê da minha avó não gostar de ter uma mãe princesa

E foi assim que me tornei cidadã do mundo, sem cor, sem terra, sem religião, sem política.
Fim
 
Prólogo

Pensador-escultura em madeira (Angola)

Quissangua-bebida de farinha de milho

Missanga-contas de plástico ou vidro

Cabaça-recipiente feito com a carcaça da abóbora (utilizado para conservar e refrescar líquidos)

Pano do Congo-pano africano

Cacimbo- estação do ano

Chocho- careta acompanhada de som bocal

Matumbo-pessoa sem educação, boçal, néscio
 
Katya Figueiredo

Sem comentários:

Enviar um comentário