terça-feira, 4 de novembro de 2014

Uma Aventura em Angola



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Depois de catorze anos, ausente, pensei que quando fosse para Angola e de lá voltasse teria muito para contar. A verdade é que Angola surpreendeu-me de tal modo que metade do que tinha em mente evaporou-se. Sobre ela pouco tenho a dizer. No entanto, não deixarei de fazer um breve resumo daquilo que foi a minha viagem.


Ao sair do avião, não fui agraciada com o típico bafo quente, que se sente ao chegar à Luanda. Quero com isto dizer, que o tempo estava agradável, nem quente, nem frio. Ao passar pela alfândega, deparei-me com as entidades de saúde ostentando termómetros nas mãos para ir medindo a temperatura a todos os recém- chegados, não fosse a atrevida ébola entrar no país sem consentimento. Passada a Alfândega, chega-me, de todos os lados, aos ouvidos o sotaque angolano, que me é tão familiar. Nessa altura tive plena consciência de que estava mesmo em Angola, não era um sonho e logo quis correr para o avião e voltar para Portugal. Mentira minha, não quis nada.


No exterior do aeroporto, apercebo-me da normal agitação de Luanda, que primeiro estranha-se, depois entranha-se e, ao fim de alguns dias já se consegue andar alguns metros ou talvez quilómetros sozinho/a. Bem, não foi o meu caso. Felizmente andei sempre acompanhada e de carro. Que sorte a minha. Confesso, há sítios que não me atreveria andar sozinha. Foram muitos anos fora, é preciso, aos poucos, redescobrir a cidade.


Também tive oportunidade de visitar a minha terra natal, Kuito/Bié. E esta nunca me decepciona. Continua linda, limpa, salvo excepções, e aos poucos vai crescendo. Quanto aos vestígios de guerra, já são praticamente inexistentes. A cidade está muito mais agitada do que antes. Já não me pude deitar na estrada tranquilamente, devido ao grande fluxo de veículos, como fazíamos quando éramos miúdos.

Como se sabe, Angola é um país em desenvolvimento e, pude sentir uma entrega total, por parte dos angolanos, no que se refere ao progresso. Arrisco mesmo a dizer que, Angola está a ter um crescimento bastante acelerado. O mercado de trabalho é aliciante. A nível profissional, com algum esforço e dedicação, rapidamente alcançaria um nível elevado.

Quando soube que ia para lá, depois de tantos anos fora, imaginei-me uma alienígena, uma quase turista no meu próprio país. Porém, ao contrário do esperado fui muito bem recebida e mimada. Em nenhum momento senti-me excluída, fui até mesmo muito encorajada a ficar por lá. Os serviços públicos estão no bom caminho, muito mais organizados, eficácia e eficiência são as palavras-chave. Desde, o momento em que aterrei, aos dias que lá estive e a altura em que parti, muito tenho que elogiar. As pessoas são prestáveis, o convívio é perfeito e a comida é de comer e chorar por mais, a música fantástica e a dança surpreendente. Quanto aos bens materiais, com excepção a roupa, que é caríssima, penso que já é possível adquirir um pouquinho de tudo sem precisar sair do país. As estradas caminham para perfeição, a terra é fértil, o país é rico em recursos minerais entre outras coisas, o clima no geral é bom, caracterizado por duas estações (chuvas e seca). Um país com tudo o necessário para um futuro brilhante.

Bem, deve estar a perguntar-se e desengane-se se pensa que ainda não me questionei sobre isso, se Angola é assim tão maravilhosa por que é que não volto para lá, construo uma carreira de sucesso ou não, e vivo por lá feliz para sempre?!

Diria que, talvez eu seja demasiado descontraída para um país cheio de vanglórias, demasiado rebelde para aceitar pacificamente algumas regras, a meu ver, patéticas, demasiado revolucionária para compactuar com certas atitudes e alimentar a corrupção, demasiado impressionável para viver bem ignorando o sofrimento do próximo. E por fim, mas não menos importante diria que sou como um pássaro. Para ser feliz preciso de estar livre, voar a meu ritmo e, ainda mais importante, sentir àquela sensação de liberdade, certeza e quietude, que Angola ainda não me consegue proporcionar.

Por norma, enfrento sempre os obstáculos com que me deparo sem grandes receios. Mas quando se trata do meu país, admito, sou cobarde. Por essa ordem, anseio defrontá-lo o mais tarde possível. Para já, fico por cá, no meu segundo país. Mas atenção, não quero com isto dizer, que Angola seja mau país. Muito pelo contrário. Angola é um país lindo, maravilhoso e rico. Tem os seus problemas é certo, mas nada com que não se possa lidar. Por isso, se tiver oportunidade de lá ir, não hesite. Tenho a certeza que não se irá arrepender. Decerto será uma experiência marcante e, quem sabe, se assim o desejar, acabará por lá ficar.

Em última instância, de que mais gostei foi reencontrar amigos e familiares que não via há quase duas décadas. E na hora da partida ter de deixar essas mesmas pessoas também foi o que mais me custou. Resta-me dizer: até daqui a um ano, Angola, ou anos, sabe-se lá.

Katya Figueiredo

Luanda
Luanda
Luanda
Bié/Kuito






  
Bié/Kuito


Bié/Kuito

Bié/Kuito

Bié/Kuito


Bié/Kuito
Bié/Kuito


Jardim da Pouca Vergonha
Bié/Kuito


Bié/Kuito

Ilha de Luanda
Ilha de Luanda


 Falar de Angola também é falar de comida boa
Mufete, prato típico angolano

e de Kizomba, género musical e estilo de dança angolano.

Adeus, Angola, terra boa e viciante
Aeroporto 4 de Fevereiro
 
 Photos by Katya


 

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