quarta-feira, 15 de abril de 2015

A Confissão do Croissant


A mãe entra para cozinha e flagra o filho a tentar tirar, da caixa do pão, mais um croissant. O filho surpreendido dá um sorriso envergonhado e larga imediatamente a tampa da caixa. Ela aproxima-se dele, abre a caixa obrigando-o a devolver o croissant e, chateada, repreende-o. No mesmo instante arregala o olhar, apalpa o interior da caixa e percebe que já só lá está um único croissant.
-Olha lá, tu comeste também o outro, ou seja, já ias no terceiro, não?!
-Só comi um, mamã!
-Sei. E o outro foi o menino Jesus, queres ver?
-Não fui eu, mamã.
-Estou a ver. Então, queres com isto dizer, que ele veio cá abaixo e comeu. Está tudo explicado!
A mãe larga a caixa do pão, abana a cabeça e vai até à janela estender a roupa.
O Carlos arruma a mesa, tira os cereais do armário, o leite do frigorífico e põe tudo em cima desta.
O irmão chega e tira o último croissant. Carlos prepara-se para se sentar, mas o pai também entra na cozinha e abre a caixa do pão.
-Já não há? Pergunta apontando para a mão do filho mais novo que come o último.
 A mãe, que ainda está a estender a roupa, olha por cima do ombro e diz-lhe desapontada.
-Olha, o teu rico filho comeu o dele e o teu. Por pouco comia do irmão também. Apanhei-o em pleno delito.
O pai olha para ele, abana a cabeça e sai da cozinha. Carlos grita para o pai que não foi ele. A mãe irritada pára de estender a roupa. Baixa-se à altura dele e com o dedo levantado num gesto de adversão diz-lhe:
-Uma coisa é fazermos algo e assumirmos, outra é cometermos algo e não admitirmos isso.
Ela volta para junto da janela irritadíssima e resmunga sons inaudíveis.
O pai volta a entrar na cozinha, ri-se, chega-se para o filho, passa-lhe a mão pelos cabelos deixando-o despenteado e goza com ele,fingindo estar triste, por ter comido o croissant.
Ele olha para o pai,retribui o sorriso e insiste dizendo, que não tinha sido ele.
O pai, já sentado, estica a mão até a do filho, acaricia-a, sorri sorrateiro e diz-lhe para continuar a comer.
A mãe volta-se para eles, chega-se para o filho, tira-lhe a colher das mãos, vira a cadeira de maneira a tê-lo de frente e inclina-se,mais uma vez, à altura do rosto dele. Num tom severo e com a expressão facial séria diz-lhe:
-Já deixou de ter piada meu menino.
Carlos enfrenta destemido o olhar da mãe, cruza os braços e arregala uma das sobrancelhas arqueando os lábios num sorriso desafiador.
Ela irritadíssima com a atitude dele fulmina-o com o olhar. Autoritária diz-lhe friamente fazendo questão de soletrar a última palavra da frase no seu ouvido.
- Dizes-me que foste tu, ou ficas uma semana sem jogar playstation.
Carlos mal ouve a palavra «Playstation» sente o sobrolho descer e o sorriso desfazer-se. Os olhos começam a brilhar, funga uma, duas vezes, baixa a cabeça e diz-lhe soluçando.
-Juro mamã. Comi apenas um croissant. Mas, a semana passada, sem querer, parti a playstation.
Um estrondo inesperado,dum punho sobre a mesa, faz-se ouvir e os três dirigem o olhar, assustado, para o pai, que grita enfurecido.
-Merda

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