sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Os Prisioneiros(guião/p3)


CENA 3
INT. SALA DO MARTIM – MADRUGADA
Deitado no sofá com o computador ao colo, Martim diverte-se a jogar. A poucos metros de si a mesa de centro separa-o da televisão, que está ligada. No enorme aparelho passa o final feliz duma comédia romântica. Martim para de jogar por uns segundos e apodera-se do comando que está na mesa de centro para mudar de canal, no entanto, quando aponta o comando a imagem romântica prende-lhe a atenção, baixa o braço e vê o filme que está mesmo a terminar. Quando os créditos do filme começam a passar no ecrã e a música de pano de fundo a tocar, suspira de desalento e entra para o facebook. De um grupo infindável de amigos pára na página duma rapariga. Eleva o indicador para clicar na foto, mas bate de leve várias vezes sem clicar como que a ponderar antes de o fazer. Pensativo morde os lábios, no entanto, determinado carrega no lado esquerdo do rato com precisão e a foto amplia-se. O retrato da rapariga da ponte preenche todo o monitor. Põe a mão sobre ele e vagueia os dedos pelos lábios e os olhos dela.

CENA 4
INT. PRÉDIO DO JOÃO – MADRUGADA
Ouve-se os risos e vê-se as pernas de João e Laura que a custo tentam desembaraçar-se das roupas ainda no hall de entrada. Aos tropeções entram para o apartamento do João.

CENA 5
.Quarto
Mal se vêem entre as quatro paredes, as roupas caem no chão com uma rapidez surpreendente. Os corpos tombam na cama com euforia, não mostram o rosto, apenas ouvem-se sons de satisfação e pernas a enlaçarem-se e desenlaçarem-se constantemente até João gritar de êxtase. Com Laura ainda debruçada sobre ele, que está de barriga para cima, estica a mão e tacteia os dedos até a cabeceira, apodera-se dum cigarro e de seguida dum isqueiro. A mão da rapariga toca-o no peito e tenta o beijar, ele brusco repela-a. Levanta-se, as suas pernas caminham até as roupas, baixa-se, apanha-as calmamente e atira-as para cima da rapariga.
JOÃO
Já te podes ir embora.
LAURA
Estás a brincar?
JOÃO
Não tens mais nada a fazer por cá. Desanda.
LAURA
Três palavras João, apenas três palavras:
 Um autêntico idiota.
 É isso que tu és.
Ela irritada agarra as roupas e veste-se de forma automática a medida que dirige-se à porta. Ouve-se a porta da rua bater com brutalidade e, indiferente a reacção de Laura está João deitado na cama de barriga para cima, a mão deste aparece e desaparece ao levar e tirar o cigarro da boca. Observa a mão estendida e fecha os olhos.
FLASH BACK
Cena 6
.Loja de discos
João vê Vilma entrar na loja de discos. Esta distraída, vagueia por um dos corredores quando repara em João com vários discos na mão, parado a olhar para ela. Ela sorri e o cumprimenta, este retribui com um sorriso tímido. Enquanto ela segue para o corredor oposto, João a persegue com o olhar entusiasta até ela desaparecer do seu plano ocular.
Abre os olhos, volta a olhar para mão e irrita-se consigo mesmo, pega no resto do cigarro e céptico a dor apaga-o na palma da outra mão. Agora o seu rosto bem-parecido contrai-se numa careta de frustração. Passeia a mão pelos cabelos, prende-os entre os dedos a meio da cabeça e grita revoltado.
João
Merda para o teu andar desconcertante. Merda para o amor.
Libertem a minha alma.
Rapidamente salta da cama e joga o cinzeiro, que está por cima da banca, contra à parede.


CENA 7
EXT.PARQUE DE DIVERSÃO - DIA
A Neuza e o André passeiam de mãos dadas numa feira de diversão.
ANDRÉ
Já alguma vez experimentaste a Roda Gigante?
Ela responde com um ar suspeito e um sorriso maroto:
NEUZA
Não.
Ele sorri igualmente maroto.
ANDRÉ
Quer então isto dizer, que a tua primeira vez será comigo. Óptimo.
NEUZA
Lamento informar-te, mas chegaste tarde (risos).Já andei algumas vezes.
ANDRÉ
Que desilusão. Estou completamente desolado.
Ambos desatam numa risada.
NEUZA
Tenho quase a certeza que ainda me aguento nela melhor do que tu.
ANDRÉ
Tenho sérias dúvidas, baby.
NEUZA
Vai uma aposta, baby?!
ANDRÉ
Desafio aceito.
NEUZA E ANDRÉ
À roda gigante.
Gritam ambos e fazem um five com as duas mãos.



Numa miscigenação de medo e adrenalina, mais ele do que ela uma vez que finge para a deixar ganhar, divertem-se como dois adolescentes apaixonados. Entretanto a volta acaba e eles descem.
NEUZA
Senhores e senhoras, senhorita Neuza oficialmente vencedora.
Abraçam-se, perdem-se num beijo caloroso e interminável.

CENA 8
INT.SALA DE Vilma E ANDRÉ – DIA
 A mulher agarra-o pelos colarinhos e sacode-o sistematicamente.
VILMA
Diz-me quem ela é?
Porque que não para de te mandar mensagens?
ANDRÉ
Pára com isso, pelo amor de Deus.
VILMA
Andas-me a trair? Fala, traidor.
Ele dirige-se ao aparador tira a carteira e as chaves de casa e sai esquecendo-se do telemóvel em cima da mesa de centro. Ela segue-o e continua a chamar-lhe de traidor e desavergonhado. Quando a porta se fecha ela leva as mãos à cabeça e começa a gritar de raiva. Anda em direcção a sala e repara no telemóvel esquecido na mesa. Pega-o com satisfação e põe-se a vasculhar as mensagens até encontrar as de Neuza, o coração acelera-se-lhe, bate cada vez mais depressa, tenta retornar uma mensagem, mas as mãos desobedecem-lhe. Vai a cozinha a correr e bebe um copo de água, bebe um segundo pela metade e entorna a restante para o seu rosto pálido. Debruça-se sobre a pia de louça por breves segundos, recompõe-se, regressa a sala e envia a mensagem.
MENSAGEM
Amo a minha mulher. Por favor, pára de enviar mensagem. Acabou tudo e não voltes a contactar-me.

Cena 8
EXT.MERCEARIA – Dia
Neuza estática fixa os olhos no telemóvel por alguns segundos. Atordoada tenta perceber melhor a mensagem. As mãos começam-lhe a tremer. Numa tentativa de ajeitar o telemóvel e o saco, este último escorrega-se-lhe das mãos, cai, as laranjas deslizam pelo saco fora e espalham-se no chão. O dono da mercearia vem a porta espreitar, ela desnorteada pede desculpas e sai dali com o rosto cabisbaixo, alterna os passos largos com corridas ligeiras até esbarrar em Martim que vem no lado oposto. Este repara que ela não está bem e pega-lhe pelos braços.
MARTIM
Estás bem?
NEUZA
Estou.
Responde-lhe a gaguejar.
MARTIM
Desculpa mas não estás. Diz-me o que se passa?
A rapariga olha-o nos olhos e não consegue conter as lágrimas. Ele puxa-a contra si, abraça-a com ternura e a choradeira dela intensifica. Lastima desalmadamente no seu colo, ele fecha os olhos, aconchega-a amorosamente e suspira de amor por ela mas, com um pesar nos olhos por não poder dizer-lhe o quanto a ama.

CENA 9
INT.DISCOTECA – NOITE
A discoteca está abarrotada de gente. Os seis protagonistas do enredo estão espalhados no meio da multidão mas em lugares estratégicos onde facilmente conseguem visualizar os seus pontos de interesse.
A Neuza está no meio dum grupo de raparigas que dançam e observa discretamente o amante enquanto a mulher está distraída a agarra-lo e a olhar-lhe nos olhos. Este de quando em quando liberta-se dela discretamente e fixa o olhar em Neuza. A mulher mal apercebe-se do seu olhar vago força-o a olhar para si. Ele olha para as pessoas à sua volta e obedece-lhe, mas não esconde o seu desagrado.
João está encostado a um pilar e levanta o copo para o ar quando Vilma por mero acaso olha em sua direcção. Ela sorri, mas volta toda a sua atenção para o marido que uma vez mais tem o olhar fixo à Neuza. Encostado a outro pilar esta o Martim que olha embebecido para a amante de André. O olhar de Laura recai constantemente sobre João, que por sua vez não tira os olhos da mulher de André. Esta sorri, fala e olha apaixonada para o marido que parece ausente com o olhar frio que só ganha brilho quando na direcção de Neuza. Vilma percebe isso, mas ignora, abraça o marido e surpreende-o com um beijo apaixonado. Neuza observa a cena, pára de dançar, deposita o copo que tem na mão numa coluna e sai do meio das raparigas que a acompanham. O olhar de Martim persegue Neuza que sobe as escadas a correr em direcção a rua. Vai atrás dela, mas rápido perde-a de vista.

CENA 9
João também vê a mulher casada a beijar o marido e pede mais uma dose de Brandy. Dirige-se para Laura e sem ponderar é directo e objectivo.
JOÃO
No outro dia, alguém lá faculdade informou-me que até gostas de mim.
LAURA
Informaram-te bem.
Há muito que ando de olhos postos em ti.
JOÃO
É?!Queres ir até a minha casa?
LAURA
Porque não?!

A ponte aparece e um som de piano ecoa no ar enquanto um outro poema está a ser recitado, mas agora não é a mesma voz trêmula.
NEUZA
CIÚME
Parece-me ser igual aos deuses esse homem que, sentado na tua frente, te ouve de perto falar docemente e rir de maneira encantadora, o que me faz saltar o coração no peito. Pois, quando te olho por um momento, já não sou capaz de dizer nada, a minha língua silenciosamente gela e imediatamente um fogo subtil corre sob a minha pele. Deixo, subitamente, de ver, os meus ouvidos zunem e um suor frio cobre o meu corpo, dominado por intenso tremor. Fico então mais verde do que a erva e pareço pouco distante de morrer.
Mas tudo se deve suportar, porque…
Fim
«A primeira versão de qualquer coisa é sempre uma porcaria»
Ernest Hemingway


Bom fim-de-semana.




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